....::: Políticas Lelé Chamma




Fim de férias

SãoPaulo, 10 de março

 

Nem me lembro quando tirei férias pela última vez, aquelas que todo funcionário tem direito de 30 dias remunerados. Acho que a última vez foi ainda nos velhos bons tempos da década de 70, mas me dei mais do que um merecido descanso do blog. Os motivos foram múltiplos.

 

O mais importante foi o lançamento do nosso primeiro livro no dia 25 passado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. A bem da verdade não tive que me preocupar com quase nada porque a Editora é super profissional e cuidou de todos o preparativos para o evento. Só que eu nunca dei uma festa na vida e, portanto tudo era rigorosamente novo. Claro que uma primeira vez sempre traz alguma ansiedade, mas felizmente foi um sucesso trazendo o sentimento de realização e dever cumprido para a missão que nos colocamos. Receber o respeito, afeto e consideração de tantas pessoas é estimulante e mobilizador para empreendermos novos desafios.

 

Outro bom motivo é que felizmente estamos com muito trabalho nesta montanha russa que é economia brasileira. As veiz bomba pra mais, outras pra menos. E por uma característica pessoal no desempenho profissional a pressão por desempenho e inovação é sempre crescente e constante. E isto independe do cliente ou a questão colocada. Tem que estudar muito, formular hipóteses e cenários, discutir a fundo examinando cada ângulo possível de ataque, um contínuo movimento de propor e realizar a criticar de forma isenta ou simulando o olho e a mente do receptor. Enfim como escrevi no livro, projeto bom é aquele que gente treme na base antes do seu início. Fazer no automático além de não tem a menor graça nos faz cair na auto indulgência.

 

Por fim uma grande parcela de desencanto com o tema política, que está rigorosamente irrelevante. A dominância do presidente com sua muito explicável popularidade faz com aqueles que se lhe opõem ponham as barbas de molho. Já escrevi muito contra a patética figura e sua troupe de preguiçosos sindicalistas arrivistas, mas como nada acontece é melhor ficar quieto ou viramos mais um daqueles chatos de plantão. A classe política é no mínimo risível com suas fatiotas endomingadas, cabelinhos arrumadinhos de quem não sai do barbeiro, caras e bocas pretendendo seriedade e reponsabilidade, mas que cabem à perfeição num roteiro felliniano quando aparecem num noticiário da televisão. Só falta mesmo um fundo musical com alguma das fantásticas e circenses trilhas de Nino Rota para pontuar o ridículo, por exemplo, tentar acompanhar as marchas e contramarchas da CPI dos cartões corporativos. Não vou perder o meu e o seu tempo analisando peças de teatro mambembe de quinta classe. O circo do Simplício da minha infância era mais autêntico e divertido na sua ingenuidade satírica.

 

Pregar no deserto ou fazer proselitismo para quem já está convencido é perda de tempo. A profunda decepção com o nosso povo que antes por alguma análise bem esquerdista acreditavamos dotado de sapiência e honestidade, mas que ao fim e ao cabo se revela apenas uma massa informe de gente ignorante e imediatista desprovida de um mínimo de discernimento e senso de justiça e futuro. Mas justiça seja feita acompanhar os movimentos do eleitorado nas primárias americanas para a próxima eleição presidencial nos faz repensar sobre os valores e virtudes da democracia de massas. O nivelamento por baixo dos padrões culturais da população produz líderes que são verdadeiros monstros demagógicos e midiáticos. Em tempos de BBB espalhados pelo mundo, a geração de idéias substantivas e propostas inovadoras para o futuro não ganham eleição. Valem apenas as emoções baratas do aqui e agora.

Voltando ao Brasil, até por traço cultural de complacência e deixar que as coisas se resolvam por si mesmo, jogamos contra o tempo e estamos perdendo. Nada está sendo feito por ausência de qualquer política que contrarie os interesses enquistados no Estado. Vamos perder o futuro porque além de dar muito trabalho inexiste qualquer vontade de mudar o status quo, dominado pela velha e retrógrada oligarquia que cooptou os antes ditos incorruptíveis petistas. Como prova o sempiterno pudê de Sarney que continua mandando e desmandando. E ganhando seus poderosos carguinhos no seu subfeudo energético.

 

Indo diretamente ao ponto, o macunaímico “Ai que preguiça!” deveria com toda justiça  substituir o dístico positivista Ordem e Progresso na bandeira brasileira.

Querem um exemplo bem realista da propriedade desta proposta de mudança do lema nacional? Ganha uma sonho de padaria obviamente amanhecido quem não ficou preso numa gigantesco congestionamento nos últimos dias aqui em SP.Volto no tempo e lembro a preocupante constatação que chegamos em 1970 na aulas de urbanismo da FAU USP. A projeção estatística que num muito distante ano de 2000, minha cidade teria 4.5 milhões de carros. Alguma coisa nestes 30 anos foi efetivamente feita para equacionar o problema do transporte público? Claro que não. Abriram algumas poucas avenidas, o metrô avançou a passos de cágado com Alzheimer, claro que a custos maiores do que o tunel sob a Canal da Mancha e neste 2008 a frota urbana chegou a 6milhõe sde veículos que é maior do que o número de toda a Argentina. Somos todos uns manés em acreditar que algo irá mudar pela via política, eu incluso.



Escrito por Lelé às 22h30
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Quaresma
SãoPaulo, 6 de fevereiro

Nesta madrugada de cinzas e fiquei até tarde vendo o noticiário sobre a super terça nas primárias americanas. Melhor observar a eleição dos outros do que chafurdar na pocilga destes cartões corporativos, um assunto que enoja. Pagamos até a tapioca do ministro. Convenhamos que lançar como despesa administrativa R$8,20 dá bem idéia do nível mambembe destas pessoas. Voltando as primárias, torço descaradamente por Hillary. Super inteligente, articulada, poderosa, considerada antes de ser FirstLady uma das 100 mais influentes advogadas dos USA. Quem me conhece sabe que sou assumidamente feminista, porque acredito que as mulheres são muito melhores do que qualquer homem adicionando intuição à inteligência. Alem do mais é mulher de Bill Clinton, reconhecidamente um verdadeiro estadista, talvez só perdendo para Franklin Roosevelt na galeria dos grandes presidentes americanos, que na presidência mostrou o quanto é amigo do Brasil ao avalizar pessoalmente um mega empréstimo junto ao FMI quando nosso país foi a lona logo no começo do segundo mandato de FHC.

Nada tenho contra Obama ser negro, mas desconfio de qualquer salvador da patria como ele posiciona com seu discurso monocórdio e sem substância propondo mudanças, que sabemos nunca ocorrerão em profundidade simplesmente porque o sistema americano não permite. Basta ter lido Galbraith quando moço para entender o porque desta afirmação. Em suma Barak, que em meu limitado árabe creio pode ser traduzido por "BoaSorte", o que mais parece nome de índio do WildWest ou apelido de mafioso. Cá entre nós ele tem toda pinta de ser apenas mais um Lula travestido porque formado em Harvard, que é super valorizada como instituição mas que tambem produz seus Mangabeiras Unger e até o arquibrizolista e ultranacionalista, o exdeputado carioca Vivaldo Barbosa, mais conhecido como a "Vanguarda do Atraso". Com todo o respeito aos meus amigos que se mataram de estudar para obter seu mestrado em Boston…

Escandalos de corrupção cada vez mais cabeludos e sórdidos entram e saem da pauta e nada cola em Lula. Mas isto é facilmente explicável pelo perfil do nosso eleitorado, predominantemente composto por analfabetos funcionais ávido por benesses públicas. Para este público nacionalista, estatizante e que anseia por um Pater que lhes provenha os meios de subsistência sem a contrapartida em trabalho ou educação Lula tem mais é que se arrumar com a obrigação de ajudar seus parentes e amigos. Afinal para este enorme segmento do eleitorado que sustenta a popularidade do presidente dinheiro público não tem dono. Quem reclama é coisa de rico e paulista, este último substantivo aqui entendido e convertido em adjetivo de impróperio.

Confesso minha desilusão e decepção com a virtudes da democracia num país como o nosso. Tudo continua exatamente igual como há 200 anos, isto é a consagração da desigualdade. Um país espoliado e devastado por uma casta de privilegiados enquistados no poder sugando e drenando os recursos da Nação, atraves da sempiterna bajulação da cerimônia do beija mão instituido por D.João VI. A única real diferença é que agora os porcos magros são democraticamente rotativos, isto é chega um turma nova com muita fome substituindo a antiga que se saciou. Mas o poder real continua na mão dos mesmos, os eternos oligarcas do atraso. Basta ver pelo indigesto noticiário sobre a partilha de cargos na administração pública para consatatar quem de fato manda neste país: Sarney e sua entourage de coroneis decrépitos com cabelos e bigodes entintados de acaju. Modernidade? Me lembro de um samba cantado por Noite Ilustrada: Faz me rir….

Está dificil manter alguma esperança em nosso país. Estamos sim crescendo economicamente, mas pra variar decorrente dos estímulos externos graças a uma política econômica conservadora herdada de FHC. Se dependesse do discurso de idiotia de esquerda que em tese assumiu o país, a mesma que agora mesmo está propondo um referendo junto com as próximas eleições municipais para reestatizar a Vale. Alem da manifesta vontade de dar um bypass na lei para formar uma super tele dita nacional a partir do nucleo que já foi chamado de telegang. E a devastação da Amazonia continua a toda vapor graças a licenças de desmatamento obtidas pela simples corrupção de quem deveria zelar pela preservação. E um sem número de outras inações governamentais que resultaram na volta de epidemias antes controladas como febre amarela, aftosa e por ai vai...Minhas desculpas pelo pessimismo talvez devido ser época de contrição e santos cobertos por panos roxos em igrejas escassamente iluminadas…

PS Chego cedo em casa ligo a GloboNews e na tela surge a imagem da mesa composta por 3 personagens todos com ares muito sérios, contritos e de fingida compostura e dignidade ultrajada. Na entrevista coletiva estavam o sequestrador dediplomata , a assaltante de bancos e um senhor de idade que falava penosamente identificado como o general tentando explicar di-da-ti-ca-men-te que o uso dos tais cartões corporativos foi perfeitamente justificado alegando razões de segurança. E num cinismo atroz afirmarem que os gastos estão diminuindo e não aumentando como provou a midia. Pelo jeito a chapa esquentou lá pelos lados de BSB, a reedição niemeyresca de Sodoma.



Escrito por Lelé às 16h30
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...::Este é um espaço de reflexão e exposição pública de idéias antes reservadas apenas aos amigos, felizmente muitos. Marca também uma grande mudança em minha vida, até então pautada pela discrição e reserva, cujo parâmetro era ser uma espécie de Père Joseph, o muito discreto confessor de Richelieu. Poder e sombra.

Outros tempos demandam novas atitudes. Como arquiteto e profissional de imagem corporativa represento os conceitos que fundamentam este blog com um ícone como foi o General George Patton, que associa visão e conhecimento estratégico de longo alcance, portanto, distanciado e analítico, mas sobretudo ousado.

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General George Patton, por Robert Capa em El Guettar - Tunisia, 1943 / Lelé Chamma, por sua filha Joana Stickel Chamma